Mastócitos Aprisionam Neutrófilos Vivos em Reações Alérgicas: Um Novo Mecanismo de Imunidade Inata
Este texto detalha os achados do
artigo "Mastócitos Aprisionam Neutrófilos Vivos e Liberam seus Componentes
em Reações Alérgicas", contextualizando a pesquisa, explicando a
metodologia, os resultados e sua importância.
Contexto e Pergunta de
Pesquisa:
Neutrófilos são células imunes
essenciais na defesa contra microrganismos. A maior parte do conhecimento sobre
sua navegação nos tecidos vem de modelos de infecção e feridas, negligenciando
condições alérgicas. Este estudo investiga a dinâmica dos neutrófilos durante
respostas alérgicas, buscando entender como interagem com outras células imunes
nesse contexto.
Metodologia:
- Modelos animais: Microscopia intravital
de dois fótons (2P-IVM) foi utilizada para visualizar a dinâmica de
neutrófilos e mastócitos (MCs) na pele da orelha de camundongos durante
anafilaxia cutânea passiva (PCA). MCs dérmicos foram sensibilizados com
anticorpo IgE contra DNP-HSA, e a degranulação foi induzida pela aplicação
sistêmica de DNP-HSA.
- Modelos in vitro: Co-culturas de MCs
derivados de medula óssea (BMMCs) ou peritoneais (PMCs) de camundongos com
neutrófilos foram usadas para investigar a formação de estruturas
célula-em-célula (CICs) e seus mecanismos moleculares.
- Microscopia: Microscopia confocal,
eletrônica de transmissão (TEM) e eletrônica de varredura (SEM) foram
empregadas para caracterizar as interações entre MCs e neutrófilos.
- Análise de expressão gênica e proteica: Ribotag-Seq
foi utilizado para analisar o translatome de MCs com neutrófilos
aprisionados. Espectrometria de massas e ELISA foram utilizados para
quantificar a liberação de mediadores lipídicos e proteínas.
- Amostras humanas: Biópsias de pele de
pacientes com urticária espontânea crônica (CSU) e síndrome de Schnitzler
foram examinadas para detectar material neutrofílico dentro de MCs.
Resultados:
- Neutrófilos migram em direção a MCs
degranulantes: Após a degranulação induzida por alérgenos, os
neutrófilos aumentaram sua velocidade e migraram em direção aos MCs,
formando aglomerados transitórios ao redor deles.
- MCs degranulantes aprisionam neutrófilos vivos: Uma
fração dos neutrófilos que se aglomeraram ao redor dos MCs degranulantes
foi internalizada por eles, formando estruturas CICs denominadas
“armadilhas intracelulares de mastócitos” (MITs). Neutrófilos aprisionados
permaneceram vivos dentro dos vacúolos de MCs por horas, mas eventualmente
morreram.
- Formação de MIT depende da degranulação de MCs e
da sinalização de LTB4: A inibição da degranulação de MCs ou do
receptor de leucotrieno B4 (LTB4R1) em neutrófilos impediu a formação de
MIT. MCs liberam LTB4 após a degranulação, atraindo os neutrófilos.
- MCs se beneficiam da formação de MIT: MCs
que aprisionaram neutrófilos (MITs) apresentaram:
Maior
capacidade de re-degranulação.
Aumento da
respiração mitocondrial.
Maior
sobrevivência em condições de limitação de nutrientes.
- MITs adquirem propriedades pró-inflamatórias e
liberam material neutrofílico:
MITs liberaram
quantidades mais elevadas de mediadores lipídicos pró-inflamatórios, como LTB4,
PGE1 e PGD2.
Ao serem
re-estimulados por alérgenos, os MITs liberaram material neutrofílico,
incluindo DNA e proteínas, por meio de um processo chamado
"nexocitose".
A nexocitose
induziu uma resposta de interferon tipo 1 em macrófagos, indicando um efeito
pró-inflamatório no ambiente circundante.
Importância e Significado:
Este estudo revela um novo
mecanismo de interação celular durante a resposta imune inata em condições
alérgicas. A formação de MITs e a subsequente nexocitose demonstram que os MCs
podem adquirir novas funções através da internalização de neutrófilos. A liberação
tardia de material neutrofílico por MCs pode ter implicações importantes na
inflamação alérgica crônica, potencializando a resposta inflamatória e a
sensibilidade a alérgenos.
Limitações do Estudo:
O estudo foi realizado
principalmente em modelos de camundongos e, embora tenha sido confirmada a
presença de material neutrofílico dentro de MCs em amostras humanas, mais
pesquisas são necessárias para determinar a frequência e a relevância da
formação de MITs em diferentes doenças alérgicas humanas.
Conclusão:
Este estudo destaca a
complexidade das interações celulares durante a resposta imune inata em
condições alérgicas. A descoberta de MITs e nexocitose abre novas perspectivas
para a compreensão da inflamação alérgica crônica e o desenvolvimento de novas
estratégias terapêuticas.
MIHLAN, Michael et al. Neutrophil trapping and
nexocytosis, mast cell-mediated processes for inflammatory signal relay. Cell,
[S.l.], v. 187, n. 19, p. 5316-5335.e28, out. 2023.
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